26.8.06

Cuspir para a Boca

Pobre Cassandra, tão afortunada pelo amor que até por cobras foste amada, por várias cobras, muito bem te trataram desses ouvidos, nunca as suas línguas os largaram até toda a materia cerosa desaparecer. Com nova clarividência, subsequente de tal profunda limpeza, toldou-se a tua percepção do presente, passaste a viver o presente a partir do futuro. Não retribuíste o amor no entanto, e por isso ele cuspiu-te nessa boca ingrata, uma grande expectoração verdilhante. Daí em diante percebeste que por mais que vivesses no futuro, eras incapaz de viver o presente. Sabias que vinha ai a destruição e ninguém mais acreditaria em ti, endoideceste quando se abateu a destruição que não conseguiste impedir. Mas o que interessa é que eras amada, e vieram por ti, mesmo quando o teu irmão entrou morto em Tróia, e tu viste, eles vieram por te amarem e violentada e maltratada não perdeste o teu dom, e mesmo o objecto que odiavas e quiseste mesmo assim salvar, de nada nada adiantou. Ele pisou e morreu, com os teus filhos forçados.